Crise dos fertilizantes: 4 lições para aprender com o conflito Rússia x Ucrânia

Veja como a guerra impactou o setor, gerou a crise dos fertilizantes e o que pode ser realizado para amenizar os efeitos.


Mesmo antes da guerra entre Rússia e Ucrânia estourar, os preços no mercado de fertilizantes já estavam altos. No entanto, com a eclosão do conflito, a situação se agravou.

“Nesse sentido, o que pudemos acompanhar de informações do mercado é que o Brasil conseguiu receber da Rússia e Bielorrússia um volume que já havia sido pré-definido. Entretanto, alguns lugares do mundo acabaram não recebendo esse material, com toda essa questão diplomática que aconteceu”, aponta Cesar de Conti Gutierrez, coordenador comercial da Organosolví.

Com estas intervenções, os países foram buscar recursos em outros mercados, como é o caso do Canadá. Consequentemente, isso deu um aumento real em dólar de matéria-prima, chegando a aumentar consideravelmente em relação ao ano passado.

“Existem números que apontam que o fertilizante estava, em média, US$ 700 e chegou a custar cerca de US$ 1200/1300, só nesta crise do ano passado e esse ano”, revela Gutierrez.

Igualmente, um ponto que tem pesado bastante nos custos é o frete internacional via contêiner.

“Para se ter uma ideia, tem havido uma grande dificuldade pra descarregar nos portos brasileiros. Em Paranaguá (PR), por exemplo, que é um grande porto recebedor de fertilizantes, eles estão com dificuldades de receber novas mercadorias, uma vez que quase não há espaço pra descarregar. Então, a logística está sendo o segundo fator de peso com relação ao abastecimento de mercado de fertilizantes – pelo valor caríssimo de frete e por toda a operação. Tanto para sair de lá como para chegar aqui”, Gutierrez.

Em suma, houve a entrada houve de matéria-prima, porém o custo deste insumo está altíssimo.

“Principalmente quando falamos dos três elementos principais: Nitrogênio, Fósforo e Potássio”, menciona Gutierrez.

4 lições para lidar com a crise dos fertilizantes


Diante deste cenário, o que fica de lição para os produtores? Confira algumas soluções para lidar com a crise:

1. Uso de fertilizantes orgânicos

Desde o ano passado, quando se começou a ter a falta de insumos e o aumento de custos do fertilizante químico, vários agricultores que já tinham a pratica de usar o fertilizante orgânico intensificaram o uso.

“Entretanto, o que foi muito curioso é que grandes players como os mercados de cana-de-açúcar e soja passaram a procurar este tipo de material, uma vez que eles olham muito o custo pra produção. E, nesse sentido, o químico sempre teve um custo menor que o orgânico. Isso também por conta dos nutrientes que eles trazem em alta concentração. Então, passou a ser uma necessidade pra eles de ter que buscar algumas alternativas. Com isso, o orgânico se tornou, em algumas unidades fabricantes, uma alternativa muito interessante pra eles”, expõe Gutierrez.

Segundo Gutierrez, o que se pode observar como uma lição é que eles deixavam de usar algumas matérias-primas, como é caso da torta de filtro (que é um produto de usina) e o bagaço de cana (que era pra queimar em fornalha pra gerar energia). Por outro lado, eles passaram a usar essa matéria-prima para aplicar no campo.

“Consequentemente, além de comprar produtos das empresas que fabricam compostagens, eles começaram a usar de forma direta o próprio resíduo da produção. Esse é um dos fatores que notamos aumentou muito no mercado, do ano passado pra cá. Anteriormente, recebíamos deles como uma matéria-prima, um rejeito da produção de cana para usar no processo de compostagem. Depois de todo esse processo de compostagem, essa matéria-prima pode liberar carbono e parte de nutrientes que ela tem. Num processo de compostagem, isso voltava como fertilizante para outras culturas”, afirma Gutierrez.

2. Consciência sobre o uso de adubos orgânicos x esterco

Antes deste conflito, muita gente que não olhava pra alternativas como a compostagem ou algum tipo de esterco.

“Por outro lado, o uso deste tem aumentado até de forma indiscriminada. Nesse sentido, tem gente usando esterco bovino direto pra aplicar no solo, o que é não tem grandes vantagens. Na verdade, ele vai terminar de compostar no solo. Num primeiro momento, ele disputa o nutriente do solo com a planta porque ele tá em processo de decomposição e compostagem. Já o fertilizante orgânico, não”, expõe Gutierrez.

3. Cuidar de uma forma mais criteriosa das análises de solo

De acordo com Gutierrez, o produtor deve cuidar de uma forma mais criteriosa das análises de solo e da forma como irá repor nutrientes para a produção que deseja.

“Sobretudo, o ideal é que ele tenha uma orientação técnica cada vez mais acirrada pra que se possa buscar alternativas. Nem sempre o químico é a única opção. Há diversas soluções para o aumento de fertilidade do solo com o uso de produtos orgânicos – o que é a melhor saída para que ele mantenha um banco de nutrientes para ter uma boa produção sempre”, destaca Gutierrez.

Da mesma maneira, é preciso entender qual é a medida adequada de nutrientes para cada safra, como forma de obter os melhores resultados.

“Por muitos anos, a medida de utilização foi exagerada. Muita gente não fazia essa conta de quanto usar de adubo para obter os melhores resultados, otimizando a operação. Esse abuso fez com que algumas culturas utilizassem volumes estratosféricos de fertilizantes. Agora, no entanto, esse estudo melhorou. Hoje já está muito mais dosado. É preciso fazer uma leitura cada vez mais técnica da condição do solo. Ainda, é necessário te ruma recomendação em cima desses fatores de alguém que conheça e saiba orientar o produtor, não baseado no achismo pois perde-se dinheiro muito fácil”, alerta Gutierrez.

4. Atenção às novidades do campo

Antes de mais nada, o agricultor tem que estar muito ligado no que está acontecendo no campo.

“A Agrishow, por exemplo, mostrou isso de uma forma muito marcante. Há tecnologia para vários setores: produção de cana, soja, máquinas, equipamentos, além aplicação correta de insumos – sejam eles fertilizantes ou defensivos agrícolas. Antigamente, tudo era muito baseado em instinto. Hoje tem muita tecnologia, dá pra mapear áreas inteiras. É logico que o pessoal pequeno não tem condições de investir tanto. Mas para os latifúndios do Brasil, a tecnologia está tomando conta do agro. Há maquinas agrícolas hoje com tecnologias muito superiores ao que vemos em automóveis. É um investimento altíssimo”, conclui Gutierrez.


Veja as dúvidas mais comuns sobre a crise dos fertilizantes


Qual o problema dos fertilizantes?

Recentemente, uma crise passou a assolar o setor de fertilizantes, cujos insumos como Nitrogênio, Potássio e Fósforo vêm, principalmente, da Rússia. Desde 2021, os preços praticados já vinham subindo. No entanto, após o conflito com a Ucrânia, a situação se agravou. Ainda, houve também questões logísticas, uma vez que o frete marítimo subiu consideravelmente no período.


Vai faltar fertilizantes no Brasil em 2022?

Gutierrez aponta que, diante da crise, muitos players do mercado até conseguiram ser abastecidos, mas os valores estão muito altos. Consequentemente, conseguiram atender o mercado com bastante dificuldade.


Qual é a atual produção de fertilizantes no Brasil?

Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos, mais de 85% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados. No entanto, o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), lançado recentemente pelo Governo Federal, busca equilibrar a produção nacional e a importação. Com ele, o objetivo é diminuir a dependência de importações, em 2050, de 85% para 45%, mesmo que a demanda por fertilizantes dobre neste período.


Quem produz fertilizantes no mundo?

De acordo com o estudo “Produção Nacional de Fertilizantes”, o Nitrogênio sintético é produzido principalmente na América do Norte, na Índia, na China, na Rússia, no Oriente Médio, na Austrália e na Indonésia. Já 80% potássio utilizado no mundo vem do Canadá, de Israel, da Rússia, da Bielorrússia e da Alemanha. Por fim, com relação ao Fosfato, 75% as reservas mundiais de fosfato de rocha estão localizadas no Marrocos e no Sahara Ocidental (ocupado pelo Marrocos).


No que diz respeito aos fabricantes, os maiores estão localizados no Canadá; na Noruega e nos EUA.


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